Coadjuvante da alegria

Desembarcou em terras brasileiras. Rio de Janeiro e o sol fazia questão de dar boas vindas ao gringo. Robert Pierreson, de 67 anos, americano e aficionado pelos cariocas. Passou seis meses morando em um apartamento alugado. Ele saía pelas ruas observando e anotando em seu caderno. Acreditava que existia algo dentro das pessoas daquela cidade que era imperceptível aos seus olhos de um pesquisador. A ciência que ele praticava não dava conta de entender porque conseguira ficar amigo de dois homens em uma padaria de Copacabana. Robert transitava pelo território como parte de seu estudo. Uma vez no trem da central viu um vendedor de balas, que se aproximou e conversou com ele em inglês. Sentia que as pessoas daquela cidade tinham um dom. Um espírito que se esparramava em carisma e aceitação. O “sim” era estampado em sorrisos escancarados. O senhor gringo era aceito no samba, na favela, na praia, ou em qualquer lugar que atrevesse a entrar. Parecia que aquelas pessoas já o conhecia antes. E não precisava nenhuma prova em contrapartida. As pessoas simplesmente sorriam, concordavam e aceitavam. Robert, a cada anotação, percebia ser indecodificável aquela natureza do ser humano. Ser carioca era ser humano. Super humano, sem querer ser herói, apenas coadjuvante daquela alegria.

Viagem ao fundo da alma

O pai vai acordando um por um, ao todo, os quatro filhos. O sol nem fez questão de nascer ainda e o pai agitado pelo dia que pretendia ser. A mãe coloca a carne temperada na noite anterior no isopor ao mesmo tempo que faz pequenos sanduíches para a viagem. O pai com o carro ligado para aquecer o motor do carro emprestado. Toda a bagagem no porta malas, as crianças no banco de trás e o Pálio 97 zarpa descendo a ladeira em direção a praia. São 30 km que separam as crianças de um momento único de suas vidas: a primeira vez que iam a praia. A escadinha começa com Kelly, de 3 anos, Salete, de 5, Cristiano Ricardo, de 7, e Erasmo Carlos, de 9. O pai e a mãe conseguiram arranjar um adiantamento no trabalho e as crianças escolheram entre: presente de natal ou ir a praia. Óbvio que a praia foi a escolha unânime, pois eles queriam ver como era ao vivo o que passava na televisão. No meio do caminho o pai percebe um barulho e para o carro. Pneu furado. Todos apreensivos com medo que a viagem acabasse naquele instante. Mas 40 minutos depois a família continua sua ida ao litoral. Até que chegam a praia. Está nublado. Todos saem do carro e param na areia diante do imenso oceano e o céu cinzento. O pai olha para suas crianças, sabendo que o dia podia estar muito mais bonito, sabendo que eles iam gostar muito mais se São Pedro fosse generoso e segurasse um pouco a chuva. O pai de repente percebe que os filhos estão chorando. Os quatro estão chorando olhando a onda quebrando na areia. O pai vai até elas e pergunta o que houve. Ao que uma delas, entre lágrimas, responde: “Pai, é muito lindo”.

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Escrituras de um amor

Entregou uma nota de cinco reais ao motorista do ônibus e ficou esperando o troco impacientemente. Lúcia tinha 50 anos e muitos anéis nos dedos. Sentou logo no banco perto da janela. Seu telefone toca e é quem ela queria que fosse, sua sobrinha. Ela estava precisando de ajuda e Lúcia tinha ido em socorro. Na ligação Lúcia pede o telefone de alguém e anota em uma cédula de 20 reais. Tia e sobrinha se encontram na esquina de um prédio. Estela, a sobrinha de 29 anos, nervosa pelo que poderá acontecer assim que as duas subirem ao terceiro andar do edifício mal cuidado de cor amarela. Lúcia entra no elevador carregando Estela e as duas sobem os andares com o sangue passando muito rápido pelo coração. Lúcia bate na porta do antigo apartamento de sua sobrinha, que se posiciona atrás dela. Uma mulherdesconhecida atende e já recebe um tapa na cara de brinde. A mulher caída no chão, com o rosto sangrando pelo tapa recheado de anéis, assiste Lúcia e Estela entrarem no apartamento e vasculhá-lo atrás de um documento. Estela vasculha atrás da escritura do apartamento, relembrando acidentalmente memórias de sua antiga relação com o homenzarrão que era o seu ex-marido, que por um acaso se encontrava na porta da sala naquele momento. A troca de ofensas começou em alto tom. A separação de 3 meses, ainda latente, carregada de amor e ódio veio a tona pela verborragia dos dois. Lúcia se prepara para mais um bote, o homem vai para cima de Estela, que também parte para cima do homem. Os dois se encostam e começam a se estapear. Estela o agarra arranhando seu peito enquanto ele segura ela forte pelos braços. Lúcia olha a cena com toda a calma de quem já tinha visto isso antes e recolhe suas coisas. Os dois se embolando e Lúcia saindo de fininho. Ela passa pela porta de saída e encontra a mulher com sua tatuagem de mão na cara. “O que está acontecendo lá dentro?” – pergunta mulher. “É o amor minha filha, o amor” – responde Lúcia ao entrar no elevador. A mulher com o rosto sangrando vai até a casa e vê o homem e Estela se amando no chão.

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O olho mágico

A vizinha tomava banho e dançava no chuveiro. Ela costumava levar o rádio para dentro do banheiro e ao mesmo tempo que passava o sabonete pelo corpo, fazia coreografias. Jaime apreciava do alto, deitado no telhado da casa ao lado. Todo dia por volta das sete horas da noite, lá ele se encontrava participando do banho de Bruna. Aos quinze anos, Jaime sentia excitação em correr o risco de ser pego. Naquele tempo, ser pego significava levar uma surra do seu pai e a promessa de nunca mais iria fazer aquilo de novo. Mas Jaime nunca foi pego. Ele era sorrateiro e sabia exatamente a hora de parar. Isso não quer dizer que já não tivesse escapado por um fio. Como na vez em que ao pisar em uma telha ela fez um barulho alto o suficiente para o dono da casa ir ver o que estava acontecendo com seu telhado. Porém, a agilidade de seus longos braços e do seu corpo magro o fizeram escapar por pouco, além do axé, que quinze segundos antes abafou o som de um flagra.

Jaime cresceu e junto com ele sua mania. Seu segredo voyeurístico foi aprimorado. Assistir a um banho embalado por uma canção, já não dava conta da sua curiosidade. Jaime se tornou corretor de imóveis. Sempre que há alguém querendo alugar um apartamento Jaime está lá para ajudar. Os clientes nunca entenderam o porquê a papelada demorar tanto para sair. Mas Jaime sabia bem. Ele passava uma semana investigando cada apartamento vizinho. Ele queria tudo: nomes, documentos, rotinas e, sobretudo, histórias. Ele queria saber como é a vida de cada uma daquelas pessoas. Ele entrava em seus apartamentos e mexia nas coisas mais íntimas que pudesse. Das roupas íntimas ao extrato bancário, tudo passava pelos olhos atentos de Jaime. Toda essa curiosidade tinha um preço, ele jamais se interessava por nenhuma mulher. Nunca conseguiu ter um relacionamento de mais de um mês. A ideia de alguém conhecer sua intimidade o deixava desesperado. Sua vida era um olho mágico, em que protegido pela porta, podia observar sem ser visto.

Era um apartamento grande em Copacabana. Jaime não achava sua localização tão boa assim, mas tinha 105 m2. O que fazia seu preço aumentar exponencialmente. Jaime ficou por lá quase um mês entendo a rotina do apartamento de cima. A mulher, uma loira de quase 40 anos, que ele vira no elevador, certa vez, tinha um marido que poucas vezes aparecia por lá. Na primeira oportunidade que teve, quando percebeu que a área de serviço do apartamento de cima tinha uma abertura, ele se arriscou com uma escada bamba e implantou uma escuta no quarto dela. Ele monitorava suas conversas a noite, porque de dia parecia estar sempre fora de casa.

CONTINUA

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A vaga de baixo da árvore

O céu reverberou um gigantesco grave anunciando o que estava por vir. Talvez fosse a chuva ou fosse o carro popular vermelho que virava a curva na rua mais movimentada da cidade. Dois flanelinhas estavam ansiosos para receber sua nova cliente. Ela iria dispor de uma ajuda para fazer a baliza, além da segurança do seu automóvel até ela voltar. Os dois trabalhadores informais estavam, naquela rua, há anos flanelando todo tipo de carro. E era conhecimento de todos a rixa que eles tinham pela divisão da rua. O Aroldo dizia que o poste era o centro da rua e sua parte era a de cima. Carvalho, porém, achava que a árvore era o meio da rua e suas vagas ocupavam a parte de baixo. A briga, na verdade, era de quem seria a vaga mais valiosa da rua: a vaga de baixo da árvore. O carro vermelho foi descendo a rua em um dia de pouco movimento. Os dois já conheciam dona Sara, a mulher do carro vermelho que dava uma boa gorjeta. Aroldo largou a marmita no meio para movimentar suas mãos para que a mulher se dirigisse até a vaga. Ele olha para os lados e nem sinal de Carvalho. Dona Sara mira a vaga em baixo da bela amendoeira. O céu continuando a roncar. E surge Carvalho de algum lugar correndo ao lado do carro oferecendo a vaga da árvore também. É nesse momento que o céu toca o som mais forte e o tempo na terra se fecha da mesma forma. Dona Sara embica o carro. Na frente Aroldo: já tá na mão. Atrás Carvalho: essa vaga é minha irmão, tu sabe bem. Dona Sara no meio não sabendo bem como fazer essa baliza em guerra. Os dois começam a discutir calorosamente. “A vaga da árvore é minha”, “do poste pra lá é seu”, “tira a mão de cima de mim”, “você tá arranjando merda”. Dona Sara, com o carro envesado, só queria saber como acabar com aquilo, mas os dois tinham muitos anos de briga para resolverem. Até que o céu resolve cair de vez trazendo muita água junto. Os dois foram aos finalmentes. Ninguém mais sabia diferenciar Aroldo de Carvalho e trovão iluminando o céu e muita chuva caindo e Dona Sara saindo correndo do carro aberto. Tudo virou uma luta apocalíptica de uma rivalidade quase secular de dois homens que rolavam pelo asfalto encharcado de água e ódio. Foi quando o céu resolveu dar um ponto final naquela história toda. Um raio veio cortando o ar e acertou diretamente a árvore, fazendo tudo que estava em volta estremecer. A amendoeira queimou no golpe se partindo ao meio. Bambeou por alguns segundos e caiu bem em cima do carro vermelho da Dona Sara. Os dois flanelinhas emaranhados no chão se levantaram num salto e sumiram, enquanto a Dona do carro vermelho tentava em vão procurar um responsável. No dia seguinte depois do temporal, socos e árvore no chão, os dois conseguiram se resolver, virando sócios de um estacionamento.

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Álbum de artimanhas

Entre revistas, jornais e maços de cigarro, da banca de jornal do seu avô que o pequeno André percebeu. Se por um acaso, seus tios e avós morressem, eles iriam levar toda as coisas que ele tinha conquistado até agora, como o vice campeonato de futebol de botão entre os primos, a destreza em subir em árvores e sua magnifica mira em petelecos. Pensou nisso até dormir. Voltou a lembrar quatro meses depois quando seu avô veio a falecer. Passou o velório inteiro perguntando se os familiares lembravam da vez que ele subira no pé de jamelão para pegar a fruta mais alta da árvore. Mas ninguém se lembrava porque apenas seu avô tinha visto. Comprovado que sua teoria estava certa, resolveu fazer algo a respeito. Criou o que ele chamou de “Registro da vida de André”, pequeno livro com ilustrações feitas a lápis de cor e caneta, com seus maiores feitos. E a cada nova feitura, era atualizado. Toda reunião de família ele fazia questão de divulgar seu mini álbum de artimanhas. Suas aventuras no resgate de seu cachorro Macau, suas habilidades em manobras arriscadas de bicicleta e até alguns tombos que podiam também ser conferidos com cicatrizes em seu corpo. Dois meses depois sua avó parte atrás do seu par. Frustrado, André não se conforma de ter esquecido de perguntar se ela tinha visto a vez em que conseguiu dar cinco voltas na piscina sem respirar. Foi um golpe duro na vida do menino de dez anos. Antes de dormir ficou pensando que dez voltas ao redor do sol podem parecer pouco, mas já tinha passado por tantas aventuras dignas de créditos que jamais seriam lembradas. Dormiu. E sonhou. No sonho, sua avó e seu avô seguravam o livro nas mãos e riam juntos passando as páginas da pequena bíblia. André acordou e logo foi ver se eles tinham deixado alguma mensagem para ele. Mas ele nunca mais achara o caderno de travessuras. E foi assim que André percebeu que talvez aquela fosse a mensagem. As pessoas vão embora e não conseguem levar tudo o que pode, só levam o que marca como uma cicatriz. Um corte na história que lhe torna mais vivo quando é lembrado.

Os gêmeos

Téo e Thiago, gêmeos eram eles. Conhecidos pelas crianças da vila de casas como mentirosos. Na verdade, parece que até Pinóquio perderia no tamanho do nariz. A dupla dizia que um tinha nascido pela barriga e outro pelas costas da pobre mãe. O pai deles, por exemplo, já participara até de corrida de submarino pela aeronáutica. Sem contar, a vez que brigara com Maguila no bar da esquina (Nessa história, muita gente acreditava pela feição cubista do pobre pai). A mãe, já fora desembargadora, embargadora e bargadora. Sendo demitida deste último por gostar tanto de vodka misturada com pilha AA. Adorava tanto a bebida, que lambia os dois no chinelo quando chegava em casa. Isso, quando não confundia os dois e acabava batendo em dobro em um.

Eram unidos. As mentiras só ganhavam força porque o outro confirmava um e um confirmava o outro. De vez em quando, se confundiam em quem tinha pulado de paraquedas e quem dirigia o caminhão para o pouso em movimento. E por isso ninguém acreditou quando, justamente no primeiro de abril, Téo chegou gritando que Thiago tinha sido atropelado. A fofoqueira da vila continuou recolhendo a roupa, Seu Zacarias continuou conferindo o jogo do bicho e a mãe dos gêmeos até colocava o prato dos meninos na mesa. Porém, outra pessoa de fora chegou confirmando a história.

Os meninos tinham inventado para um homem na rua, que um deles era uma assombração e que sempre ficava seguindo pela rua. O homem, que odiava assombração, decidiu passar com seu carro por dentro dele, para depois descobrir que era um mentira de carne e osso. Thiago parecia um disco de vinil de tão amassado. E Téo só pensava que até para falar a verdade precisava do irmão, que agora não podia mais confirmar suas mentiras. Mas se tornara de vez uma assombração para ele.