Um passo na calma da existência. Sem pressa, sem destino. O caminho sem marca de pés. A eternidade de folga pediu alguns minutos de descanso. O que vamos fazer na hora que vem? O alarme programado para daqui a oito anos. Uma caminhada sem anseio. Sem compromisso. Sem meta. O alvo é sentar em um banco e inventar nomes até amanhecer. É deixar o cadarço desamarrado do sapato sem meia. Rindo do desenho da sombra, dos bichos nas nuvens, do mistério das estrelas, das respostas sem perguntas, da inércia do sonho. Assobiar desafinado e sentir os pingos de chuva. Lá vem chuva. O que vamos fazer na chuva que vem? Dançar.
Por todas inquietações
Valeu Tv Puc!
Durmo
Durmo no frio
Durmo no chão
Durmo no rio
Durmo na reunião
Durmo de pijama
Durmo vendo TV
Durmo na cama
Durmo sem querer
Durmo com música
Durmo sem dormir
Durmo com dúvida
Durmo de fingir
Durmo no metrô
Durmo com sonho
Durmo no elevador
Durmo sem sono
Durmo de graça
Durmo escondido
Durmo na praça
Durmo perdido
Durmo quieto
Durmo arrumado
Durmo bem perto
Durmo de lado
Durmo desde novinho
Durmo para viver
Durmo sozinho
Durmo às vezes com você
… e durmo.
Tempestade
Meu coração está aos pulos. Solta de vez em quando um sinal de fraqueza, esperando que um choro calado possa resolver esse nó na garganta. Uma semana inteira perto da invisibilidade, me transformou em um zumbi da emotividade. Um sorriso de criança através da janela foi o estopim de uma bela chorada dentro de um ônibus com uma mulher do meu lado perguntando o que houve. “Está passando mal?”. “Tô e não faço a menor idéia de quê”. Devia ter respondido, mas acabei com a cabeça baixa e uma vergonha. A situação foi piorando, quando alguém escutando um rádio permitiu que a música entrasse em meus ouvidos e guiasse toda minha dor. Toda minha angústia em acordes simples e melodia suave. Fui caminhando no escuro esperando um milagre. Uma experiência divina que pudesse me salvar desse calvário. Uma chuva gelada arriou do céu tempestuoso sobre a minha cabeça. Fez questão de alvejar meu corpo inteiro em um paredão de fuzilamento. Arrisquei uma corrida de anos luz que não fazia. Encarei toda aquela água de frente. Encharcado, meu rosto disfarçado não mostrou para as pessoas que passavam, que mais do que o céu, dois olhos transbordavam.
Canção Final para o Começo do Dia
Caramelo
O longo corredor, agora estreito, denúncia os olhares bem próximos. Ela sorrindo o dia como se fosse o último. Quando coloca roupa clara então, ninguém resiste ao seu carisma, a sua sorte, a sua mania de ser encantadora. Uma heroína disfarçada de pessoa comum, com o uniforme dentro da bolsa esperando para salvar alguém. Dedicada a sua arte de olhar, ao seu jeito de falar e conquistar qualquer alma viva em um raio de 100 metros. Apega-se aos detalhes, ao que ninguém vê, as entrelinhas de um gesto delicado. Ao “bom dia”. Ao seu bom humor que rima com caramelo. Única e bela demais para ser real. Singular e só não é perfeita para não ser chata. Uma mulher normal carregada de emoções, que chora, brinca e luta. Só ela é Hanna Melo.
Vitrine
Aqui de cima, o vento bate gelado no acelerar das rodas no asfalto. O zunido é desfocado, contrário. Ao passo que o olho acompanha parado. É trailer, é frase, sinopse e resumo. As histórias são contadas por atores no ato. A graça do salto, nem tão baixo, nem tão alto. Mas de longe é du Soleil. Casais de mãos dadas são exemplo. Intenso, sonolento, cabelos e vento. Coloridos vestidos de meninas com caimento perfeito, nem a etiqueta incomoda. Sanduíches com todos os sabores diferenciados em harmonia com o sal e o tempero exato. Crianças bem sucedidas nos negócios, com conexões no exterior dos playgrounds. Velhinhos fofos de mão dada com velhinhas lindas atravessam a rua sem ajuda. Faixa a faixa correm os filetes brancos, carros limpos na combustão de seus donos. Semáforo…stop. Insert Coin. Crianças felizes de cinza. Doces ou travessuras? Correndo seus remédios, malhados caras sobrevoam meninas gatas. Ninguém sua. Motomeninos fazem o crochê da nova coleção Fashion Noir Invisible. São notas de uma partitura cosmopolita, vista por uma vitrine embaçada no alto de um arranha chão.